Fonte: de Pickpocket
Fui conferir a nova exposição da Fundação Cultural BADESC, entitulada Ninho. Sua premissa é praticamente um dispositivo. Várias artistas (pelo que me lembro, todas mulheres) foram convidadas a elaborar criações a partir do conceito que dá nome à exposição. Há fotografias, projeções, videos, objetos, etc. Dei uma olhada com calma em todos, mas não vou me ater aos trabalhos, alguns gostei, outros não. Quero comentar é algo sobre a videoarte de Cláudia Zimmer.
Deixo claro que isso não se trata de uma crítica de arte e que não farei um julgamento detido da obra de Zimmer. Vou apenas discutir um ponto que ela me suscitou.
A obra se chama Como ao menos construir um ovo e é composta por um vídeo e uns folhetos para o público levar para casa. No folheto, instruções de como fazer um desenho técnico de um ovo. No vídeo, a execução desse desenho em um plano plongée fixo de um pouco mais de 5 minutos, sem cortes. Vemos apenas as mãos, o papel, o lápis, a borracha e o compasso.
O trabalhou me tocou por contrastar com uma frieza técnica a idéia de algo tão quente e maternal quanto um ovo. O título ajuda um pouco a colocar esse contraste como uma tensão em um sujeito materno. E ao que me pareceu, esse sujeito pode sentir duas coisas praticamente opostas: o fardo da procriação como um trabalho preciso e a frustração de não poder procriar, restando ao menos uma técnica fria que faz relembrar algo perdido. Por esse pequeno percurso mental que fiz, achei o trabalho interessante.
Mas quando assisti ao vídeo me incomodei um pouco. Me incomodei porque já vi isso diversas vezes. Não um ovo sendo desenhado, mas uma idéia de que videoarte tenha que ser dessa forma. E aí chegamos ao que quero comentar.
Troque o desenho do ovo por mãos cortando um arranjo de flores, ou escrevendo palavras em um corpo, ou ainda escovando dentes. O que acontece é que geralmente esses trabalhos investem simultaneamente em duas coisas: a desantropomorfização da imagem cinematográfica e a concretude da duração.
Bem de acordo com o que parece ser a lógica da arte atualmente, esses procedimentos vão na direção de um pensamento que é não-pensamento (como diz o Rancière) e por isso apostam em algo que escapa, que foge do conjunto que identifica sua prática. No caso da imagem em movimento são essas duas premissas citadas acima, e que acabam por sabotar a relação entre espectador e imagem. Onde deveria haver um efeito compensatório, há uma barreira, uma opacidade, um enunciado que nos diz: essas imagem são alheias a você, saia daqui.
Nada de errado com essa escolha. É muito interessante até. Podemos inclusive fazer relação com momentos da história do cinema em que se investiu de maneira aproximada nessa opacidade. Mas o que me incomoda é que isso, no contexto da videoarte, parece ter se tornado um cacoete, ou pior, um porto-seguro que cristaliza as possibilidades do suporte. Tanto que além desse recurso do plano fixo, há também uma pequena variação muito explorada, a do plano-seqüência. Nela, há o mesmo investimento em desumanização e duração. Correr com sorvete pela cidade, subir escadas proferindo nomes… esses trabalhos acabam criando a mesma relação que temos com o desenho técnico do ovo.
A imagem cinematográfica permite uma variedade de procedimentos. E há muitas coisas para explorar que prescindem do regime do filme ficcional, mesmo que usados nele. Alguns que me vêm à mente agora: a iluminação, o foco, o extracampo, o jogo entre imagem e som, as fusões, a montagem, a brincadeira com uma gramática que já é universal, mas pode ser sabotada, retrabalhada, intensificada.
A videoarte não precisa ficar no anódino, no trabalho com a câmera como se fosse mero quadro em movimento. Pode-se investir plasticamente nas inúmeras possibilidades que uma filmadora caseira e um programa de edição proporcionam. É essa timidez em explorar o suporte que não entendo. Talvez tenha algo a ver com uma aversão ao controle que o meio cinematográfico impõe na experiência e que não tem muito a ver com o ambiente de exposição. Mas supor que esse controle já se manifesta no uso dessas possibilidades expressivas não é só um erro, mas um preconceito.
O trabalho de Cláudia Zimmer pôde até ter usado com serenidade esse registro do plano fixo. Mas que estou cansado dele, estou. Ainda quero ver uma videoarte que dê tanta importância ao primeiro radical do seu nome, assim como dá ao segundo.

![[Os+sete+samurais.jpg]](http://bp2.blogger.com/_HUJCetcZHas/Rb-HEI_RMwI/AAAAAAAAAZA/2PsvDDHwNDc/s1600/Os%2Bsete%2Bsamurais.jpg)



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