Eis a diferença entre o cinema americano e o brasileiro. Se você é cult nos EUA, ganha um empurrãozinho do Tarantino, um contrato com os Weinstein, uma vaga na panelinha dos Coen, algo assim. Se você é cult no Brasil, você não ganha porcaria nenhuma e leva 40 anos pra fazer um filme. José Mojica Marins (o nosso Zé do Caixão), o maior Ãcone do cinema nacional ao lado de Renato Aragão (o nosso Didi), levou esse tempo pra concluir sua trilogia iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e continuada em 1967 com “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”. Dois clássicos absolutos e uns daqueles raros exemplares de “cinema de gênero” em um paÃs que só sabe fazer drama e comédia, quando muito.
De lá pra cá, Mojica tornou-se um herói underground, fez filmes de todo tipo (até de sacanagem), programas de TV, ganhou biografia, foi idolatrado no exterior e redescoberto no Brasil. Mas nada disso garantiu sua sobrevivência no nosso cinema. No mÃnimo, garantiu uma equipe de jovens talentos completamente apaixonada pelo Ãdolo e disposta a fazer de “Encarnação do Demônio” o filme que ele merece. Com a orientação do mestre, eles conseguiram.
Em uma combinação nada sutil da ficção de Zé do Caixão com a realidade de Mojica, o filme começa mostrando que o personagem passou 40 anos preso por seus crimes hediondos cometidos nos anos 60. Como a lei brasileira é uma merda, alguém resolve soltar o psicopata satânico, agora um senhor de idade. Mas Zé do Caixão é persistente e, assim que sente o doce ar da liberdade, já retoma sua antiga missão: encontrar a mulher que irá gerar seu filho perfeito, e trucidar todo o resto de gente que passar pelo caminho. A polÃcia sanguinária e os fantasmas do passado não vão deixar essa missão se tornar tão fácil assim.
Os flashbacks dos filmes anteriores deixam claro que o agente funerário Josefel Zanatas dos anos 60, em preto-e-branco, bota muito mais medo do que nosso velhinho dos dias de hoje. Nas últimas décadas Zé do Caixão tornou-se uma figura folclórica, caricata. Suas unhas gigantescas são Ãcones da cultura nacional como a buzina do Chacrinha. Mojica deve saber disso, porque tratou de mostrar um personagem assustado, assombrado, atormentado, que se choca com garotos fumando crack na rua e volta toda a sua amargura contra instituições como a polÃcia e a igreja. O medo que o velho Zé do Caixão transmite foi, de certa forma, atualizado.
Não que isso faça alguma diferença quando começa a carnificina propriamente dita, e as vÃsceras e a carne e o banho de sangue tomam conta da tela. Rob Zombie, Eli Roth e aqueles caras que fazem “Jogos Mortais” devem se sentir cineastas Disney quando Mojica desce o cacete na mulherada (em todos os sentidos possÃveis), usa um rato de maneira sexualmente pouco ortodoxa, amarra uma vÃtima dentro de um porco (cena já antológica) e dá novo sentido à expressão “comer uma bunda”. Tudo, lembre-se, em nome do amor e da perpetuação da espécie. Afinal, Zé só quer copular.
Ao seu lado em cena, Mojica conta com figuras simbólicas como o eterno Jece Valadão (em seu último papel), José Celso Martinez Corrêa e o sensacional Milhem Cortaz (de “Tropa de Elite”), numa versão mais louca e perturbada do monge albino de “O Código Da Vinci”, além de uma seleção de mocinhas desinibidas que topam qualquer parada (Jackass de cu é rola). Do lado de trás da câmera, fotografia e edição de primeira, direção de arte e maquiagem caprichadas e efeitos impressionantes, principalmente quando os fantasmas do passado aparecem em p&b.
“Encarnação do Demônio” é motivo de orgulho para todos os envolvidos e também para quem assiste. Eu não sei quanto a você, mas eu me sinto orgulhoso só de ver um filme de terror passado em São Paulo. Precisava mesmo o demônio mostrar pra gente que ainda há esperança e gente bacana no cinema nacional. Mojica disse que seu filme é um exemplo pra todos os jovens cineastas da América Latina que gostariam de fazer filme de terror por aqui. É uma pena que não saia um desses a cada seis meses.
Renato Thibes | registrodissonante.blogspot


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