15 de julho de 2008
Publicado por @TiagoMx
Fonte: de le Pick Pocket
Contra a criação doentia da imagem pela imagem alimentada pela cinefilia (do qual me incluo nisso), temos a simplicidade profunda de Kim Rossi Stuart. Anche Libero va Bene (Estamos bem mesmo sem você), talvez seja um dos melhores exemplos recentes de um cinema que usa da tradição, evitando de um lado os esquematismos pragmáticos, de outro a histeria pseudo-artística. Rossi cumpre a função pecaminosa de contar uma boa história e de investir cuidadosamente na elaboração e encarnação de seus personagens (o que é de se esperar de um diretor-ator). Com isso, realiza algo que muitos autores desejam, mas não conseguem. Faz com que a imagem de seu filme tenha uma sensibilidade cutânea.
O momento de vida em que Tommi se encontra, minado por um pai desesperado com o descontrole de sua família, uma mãe que periodicamente abandona a casa mas sente um profundo amor pelos filhos, e as inúmeras “pequenas” coisas da vida (o desejo amoroso, a vida social), é crucial na sua formação como pessoa. Seus percursos e escapatórias, uma geopolítica da sala de aula, um jogo com a realidade sobre o telhado, a sua obrigação de cumprir o papel de nadador, são como terminações nervosas que se expandem, se retraem e sofrem perturbações de acordo com o as reviravoltas de sua família. Por isso, o que está em jogo para Tommi é a perda total da sensibilidade, a morte destas terminações como talvez a única saída para ele continuar tocando a vida.
Talvez o que dê grande força a este filme bastante conciso em termos de imagem é o trabalho de foco narrativo, quase um palavrão em tempos de pós-cinema. É este o principal recurso que constrói o olhar de Tommi (provavelmente elemento mais importante do filme) e o que o alinha ao nosso. Por entrarmos no meio de uma história (o clássico in media res) construímos afirmações e expectativas através de um senso-comum. Porque Tommi tem tanta desconfiança do retorno da mãe? Não é sua irmã que está certa, ao se entregar às emoções e aos braços dela?
Tal elipse dramática sobre o protagonista é o suficiente para que se construa o campo de terminações que estão em jogo e que define a tensão que faz de Tommi singular: tentar achar o equilíbrio entre ser um homem e conseguir nutrir algum sentimento pelas coisas. E achar equilíbrio parece ser a ação que o filme tateia como solução. É através da concessão mínima que Tommi tem a possibilidade de ainda acreditar em sua família despedaçada, apostar em descobertas e contar com uma sustentação para construir sua precária rede de sentimentos e expectativas que fazem dele alguém vivo. E é isso que fazem um abraço engasgado de pai e uma carta sincera de mãe. Dão vontade de continuar.



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