Quase quatro décadas depois, um dos períodos mais obscuros da história do Brasil ainda rende muitos roteiros para o cinema nacional. Os conflitos dos perseguidos pelo regime militar, o inferno dos porões da ditadura e o vazio deixado na vida de milhões de brasileiros pelos crimes praticados pelo governo valem por sua dramaticidade e principalmente pelas lições de luta por um país melhor.
Em Teu Nome (Brasil, 2009), que estreia nessa sexta em todo o país, tem roteiro e direção de Paulo Nascimento e trata exatamente da época mais pesada do regime de exceção, na década de 1970, durante o governo Médici. O filme acompanha a história verdadeira de João Carlos Bona Garcia e de sua esposa, Célia Garcia, do momento em que o jovem estudante de engenharia toma parte em ações armadas da Vanguarda Popular Revolucionária de Carlos Lamarca, até sua saída do país, junto com o grupo dos 70 militantes trocados pelo embaixador da Suíça, e posterior exílio na Argélia e na França, terminando com a volta do casal ao Brasil, em 1979, com a Lei da anistia, de cuja comissão Garcia foi presidente.
O filme é simples e didático. O roteiro, escrito por Nascimento em 5 dias num hotel em Gramado, na serra gaúcha, não surpreende e perde o ritmo da metade para o final, abusando dos planos curtos colados em sequência. Quase não há ação e o espectador só toma consciência dos acontecimentos pelos diálogos demasiadamente superficiais e explicativos entre os personagens. Momentos potencialmente dramáticos passam despercebidos e alguns trechos são constrangedores, sobretudo as falas de Cecília, alterego cinematográfico de Célia, que, assim como o protagonista, não convence e não gera empatia no público, que assiste ao filme como quem vê uma peça escolar.
O ponto positivo do longa é a trilha sonora, com direito à participação especial de Vítor Ramil, e também algumas das locações no Rio Grande do Sul, no Marrocos e na França, que, nas palavras do próprio diretor, pretenderam ser fiéis ao cenário onde a história realmente se deu.
A experiência é válida pelo retrato de um período, mas, cinematograficamente, deixa muito a desejar. Além disso, vem num momento delicado, em que a lei de anistia tão comemorada na história é questionada pela sociedade após a polêmica decisão do STF que não cedeu à pressão de grupos internacionais de defesa dos direitos humanos e manteve a impunidade dos agentes do governo acusados de tortura. Entre os muitos filmes que tratam do regime militar, o trabalho de Nascimento não se destaca senão como evidência de que um roteiro descuidado pode ofuscar uma história de vida das mais fascinantes.
===
Resenha especial escrita pelo autores convidados Tiago Gautier ( @el_gauti ) e Viton de Araújo Neto ( @pegaladrao ).
===
O Cinezine Histórias de Cinema ( @cinezine ) agradece a disposição dos autores e o convite da Cena Um Produtora para a realização da cobertura da pré-estréia realizada no Unibanco Arteplex Shopping Bourbon Country - Porto Alegre.
Carlos Lamarca, Cena Um Produtora, cinezine, ditadura militar, em teu nome, gramado, Lei da anistia, Paulo Nascimento, Porto Alegre, Shopping Bourbon Country, STF, Tiago Gautier, Unibanco Arteplex, Viton de Araújo Neto, Vítor Ramil





{ 6 comments to read ... please submit one more! }