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Um aviador também pode filmar

Ontem, depois de gastar os restos das minhas moedas no caríssimo café da Academia de Tênis, me dirigi à sala 5 sem esperar grandes coisas do filme do Cazaquistão, "Tulpan". Achei muito curioso o fato de seu diretor, Serguey Dvortsevoy, ter se formado na Escola de Aviação da Ucrânia. E queria ver o que os jurados de Cannes andavam premiando, já que a película ganhou o prêmio Un Certain Regard, em 2008. Algumas pessoas tinham comentado que o filme era bom, mas essas avaliações são tão subjetivas. É preciso de mais e mais para me convencer. E, também, não gosto de gerar expectativas em torno de algo que eu vá ver. A questão é que "Tulpan" me surpreendeu muito. Dvortsevoy diz que faz um "cinema da vida" e realmente o que vemos na tela é tão próximo da realidade que não se sabe ao certo o que foi dirigido e o que aconteceu ali naquela paisagem desértica sem previsão. Tudo o que foi apresentado demonstrava uma experiência de vida vasta e de fato Serguey a tem, pois viajou por muitos cantos daquela região da antiga União Soviética. "Tulpan" foi candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2009. É claro que isso não é garantia de qualidade, mas é estranho como os filmes que concorrem a esse prêmio serem tão diferentes daqueles que são feitos nos Estados Unidos. A linha é tão tênue entre documentário e a ficção nesse filme cazaque e a história é tratada com uma grande delicadeza, coisa de quem respeita o homem, que sente afeto por ele. Esse é o primeiro longa de Serguey Dvortsevoy. A história se passa num lugar no meio da estepe cazaque, não há indicações precisas de onde seja. O protagonista, Asa, quer ser pastor de ovelhas e ele busca um casamento, pois essa é a exigência de seu patrão para que ele possa receber um rebanho. A única jovem disponível da região, Tulpan, rejeita-o, pois alega que suas orelhas são muito grandes. Asa tenta a todo custo fazer com que ela o aceite. Numa determinada cena do filme, ele mostra à jovem o desenho que fez na gola de seu uniforme de marinheiro do Serviço Naval Russo, um costume entre eles. E algo tão simples, torna-se tão belo. Um jovem que mora no meio do nada e que ainda é capaz de sonhar. Os longos planos contemplativos acompanham o cotidiano dos personagens. O elenco é composto, em sua grande parte, por atores não-profissionais. Serguey opta por usar o nome verdadeiro daquelas pessoas. Ao fazer uma comparação, pode-se dizer que sua câmera funciona como a máquina fotográfica de Cartier Bresson, pois ele parece invisível e capta momentos tão únicos quanto o fotógrafo francês. Ele está sempre no lugar certo, na hora certa. É impressionante. A longa cena do parto da ovelha é um momento que para alguns pode causar um certo asco, mas que simbolicamente é um momento muito importante na vida de Asa (Askhat Kuchencherekov). O momento da auto-afirmação como pastor. Há também o lindo plano em que o protagonista observa sua família pela janela de um trator, ele olhando para trás e sua irmã e seu pequeno sobrinho correndo atrás do veículo, a moldura de um sonho que ele está a abandonar. "Tulpan" é um belo filme que vale a pena ser visto por seu humanismo. #Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani: - "Tulpan", de Serguey Dvortsevoy, Cazaquistão, 2008, 100min. Sessões: sexta-feira, dia 13 de novembro, às 19h10 e sábado, dia 14 de novembro, às 19h40

Sobre a semana passada

Como comecei a cobertura do XI FIC Brasília somente na segunda-feira, vou falar somente agora sobre alguns filmes que vi na semana passada. A começar por "A Fita Branca" que foi o longa que passou na abertura do festival. Michael Haneke é o tipo de roteirista que não gosta de entregar o filme prontinho, fechadinho e com um lacinho em volta para o espectador. E isso não é feito de uma forma desleixada e forçada. Há todo um pensamento envolvido. “A Fita Branca” (Dass Weisse Band, 2009) é o filme austríaco que  ganhou a Palma de Ouro esse ano. Honestamente, não sei se merecia ganhar, pois não vi os outros, mas o filme de Haneke é belíssimo. A influência de Bergman é muito perceptível. Uma história sobre o nascimento do ódio, sobre pais e filhos e como a forma de criar a prole dificilmente muda de geração para geração, a não ser que aconteça algo, como uma Guerra pra onde todos os homens do vilarejo fatalmente irão e só sobrarão as mulheres. O que será feito desse tipo de criação? O filme se passa num vilarejo alemão pouco antes da I Guerra Mundial. Estranhos eventos começam a acontecer na cidadela. Estes incidentes isolados vão tomando forma de um ritual de punição. O professor da cidade investiga o caso, tentando achar os culpados. “A Fita Branca” dividiu opiniões do público em Cannes. Alguns alegaram que a quantidade de personagens confunde o espectador. Outros disseram que a fotografia de tão bela toma conta do filme e atrapalha no entendimento da história. Mas, na minha opinião, o filme austríaco é uma aula de sutileza. Um filme violentíssimo que não mostra nenhuma cena de violência, isso é admirável. A fotografia, em preto e branco, fez Haneke se aproximar ainda mais de Bergman. O gelo, o olhar das crianças, a religião, o ódio, a repressão, a criação severa, a repulsa e a crueldade, esses são alguns dos aspectos tratados na película. A fotografia só atrapalha aos maravilhados, sem ela o filme não causaria o impacto que causou, sem ela não teria como sair tão satisfeito dali. Cada quadro é uma pintura, tudo muito perfeito. Cinema é música da luz e essa foi uma sinfonia de Beethoven, nesse quesito. É certo que o filme tem seus problemas, ele parece mais longo do que é, por causa da tamanha densidade da história. A narração torna-se repetitiva, a partir de um certo momento. A necessidade de tornar o professor um pouco mais importante na história cria uma historinha em paralelo que não faz diferença alguma. Porém, apesar dos pesares, “A Fita Branca” é um filme belíssimo, com alguns diálogos primorosos. Um amigo, logo depois que a sessão terminou disse “Isso aproxima-se à literatura. Aproxima-se tanto que eu precisaria de mais tempo para ver esse filme.” De fato, isso não agrada a todos, mas não há como negar a beleza do filme e a sutileza de Haneke. O filme deve estrear no Brasil no ano que vem. Quando isso acontecer, não deixem de ver, de forma alguma. * A estreia, no Brasil, do filme de Haneke está prevista para março de 2010. * Em breve, farei posts sobre os outros filmes que vi na semana anterior.

Nos confins do mundo

Depois de um dia não muito bom no FIC, eu já estava desanimada para a última sessão. Porém, o filme "Os Famosos e os Duendes da Morte" de Esmir Filho superou todas as expectativas que eu não tinha criado antes da exibição. Creio que não foi à toa que o filme paulistano levou o prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio. A película é baseada no livro homônimo de Ismael Caneppele. O primeiro longa de Esmir trata da história de um garoto de 16 anos, que mora numa pequena cidade alemã, no interior do Rio Grande do Sul, na região do Vale do Rio Taquari. O menino é fã de Bob Dylan e seu meio de contato com o mundo é a internet. O tédio de sua cidade gelada é bem retratado. O rapaz assiste à vídeos onde aparece uma garota e um homem. Um mistério no filme. Quem são essas figuras? Nesse filme, o diretor continua com a abordagem dos seus curtas "Alguma Coisa Assim" (que ganhou prêmio de melhor roteiro em Cannes) e "Saliva": é a tentativa de aproximar-se do universo juvenil, do que se passa na cabeça dessas personagens que estão começando a viver. O afeto, o medo, o tédio, a amizade, a morte. Esmir fez um filme muito bonito. Existe uma certa proximidade, não digo que seja idêntico, com os filmes mais recentes do Gus Van Sant ("Elephant" e "Paranoid Park") . Um universo parecido. Um quebra-cabeças. Quem são as figuras que aparecem naquelas imagens texturizadas? Uma pitada de fantasia dá o tom. Jovens que moram longe de tudo tem uma tendência a querer sair dali, seja do "cu do mundo", como diz o protagonista, seja de uma cidade seca, seja de onde for. Sempre querem fugir pra um lugar que não lhes pertence, porque acham que não pertencem ao lugar de origem. O mundo é feito disso, de pessoas que se movem. Pode ser que o jovem compre uma passagem só de ida para um grande centro, pode ser que ele sonhe em textos postado em blogs, nas músicas que baixa, nos filmes que vê. Na adolescência, há sempre aquele caminhar perto da morte, o fascínio. Não todos, mas alguns passam por isso. A ponte? Pode ser uma saída. O filme é muito bem feito. Os aspectos técnicos não deixam nada a desejar, é pra gringo nenhum botar defeito. Pra não dizer que só falei de coisas boas, o filme poderia ter uns minutinhos a menos. Chega num ponto em que ele se arrasta demais. Mas só posso fazer essa ressalva. Henrique Larré, o protagonista, surpreende por sua atuação segura. O menino é talentoso, sem sombra de dúvidas. Esmir não mostra a fome, a miséria, a vida nas favelas e mesmo assim está muito próximo do Brasil. Pode não ser o Brasil de todos, mas certamente é o de muita gente. Ao lado de "À Procura de Eric" de Ken Loach, foi um dos melhores filmes do FIC Brasília 2009 que vi. Vale a pena ver, assim que entrar em cartaz no circuito nacional.

Foto momento Cannes

A imagem de Cannes

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