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Um documentário fraco

O documentário espanhol "La Zona de Tarkovsky", dirigido por Salomón Shang, começa com cenas de arquivo. Pesquisei e não consegui identificar de onde eram essas imagens e, muito menos, o propósito delas. A sinopse dizia que o filme contava através de depoimentos de pessoas que trabalharam em "Solaris" a história de Andrei Tarkovsky e seus desejos cinematográficos para entender a vida por meio da película de cinema. O que apareceu na tela eram histórias de crianças russas que lutaram na II Guerra Mundial. O que aquilo tinha a ver com a história? Até agora não consegui entender. Depois dessa confusão inicial, inciam-se os créditos e eles duram por uma eternidade. Juntamente com as letras, a música "The End", do Doors. Isso não poderia ser mais lugar comum. No decorrer do filme, nota-se que tudo se alonga. Talvez tenha sido uma tentativa do diretor de aproximar o tempo de seu filme aos trabalhos de Tarkovsky ou por pura vaidade ele tenha querido transformar um curta em longa. São muitas dúvidas. Porém, o filme tem aspectos positivos. Os depoimentos das pessoas que trabalharam com o diretor russo tratam da sua personalidade, do seu processo criativo, de como era trabalhar com um homem totalmente dedicado a sua arte. Aparecem também algumas imagens de Tarkovsky, ele falando de pessoas que colaboraram para sua forma de fazer cinema. Além disso, nada demais. Um documentário fraco. Às vezes, eu tinha a impressão de estar a assistir ao National Geographic. Melhor dedicar seu tempo assistindo aos filmes de Andrei Tarkovsky. *Ontem, aconteceu a última sessão do documentário, no XI FIC Brasília

Nos confins do mundo

Depois de um dia não muito bom no FIC, eu já estava desanimada para a última sessão. Porém, o filme "Os Famosos e os Duendes da Morte" de Esmir Filho superou todas as expectativas que eu não tinha criado antes da exibição. Creio que não foi à toa que o filme paulistano levou o prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio. A película é baseada no livro homônimo de Ismael Caneppele. O primeiro longa de Esmir trata da história de um garoto de 16 anos, que mora numa pequena cidade alemã, no interior do Rio Grande do Sul, na região do Vale do Rio Taquari. O menino é fã de Bob Dylan e seu meio de contato com o mundo é a internet. O tédio de sua cidade gelada é bem retratado. O rapaz assiste à vídeos onde aparece uma garota e um homem. Um mistério no filme. Quem são essas figuras? Nesse filme, o diretor continua com a abordagem dos seus curtas "Alguma Coisa Assim" (que ganhou prêmio de melhor roteiro em Cannes) e "Saliva": é a tentativa de aproximar-se do universo juvenil, do que se passa na cabeça dessas personagens que estão começando a viver. O afeto, o medo, o tédio, a amizade, a morte. Esmir fez um filme muito bonito. Existe uma certa proximidade, não digo que seja idêntico, com os filmes mais recentes do Gus Van Sant ("Elephant" e "Paranoid Park") . Um universo parecido. Um quebra-cabeças. Quem são as figuras que aparecem naquelas imagens texturizadas? Uma pitada de fantasia dá o tom. Jovens que moram longe de tudo tem uma tendência a querer sair dali, seja do "cu do mundo", como diz o protagonista, seja de uma cidade seca, seja de onde for. Sempre querem fugir pra um lugar que não lhes pertence, porque acham que não pertencem ao lugar de origem. O mundo é feito disso, de pessoas que se movem. Pode ser que o jovem compre uma passagem só de ida para um grande centro, pode ser que ele sonhe em textos postado em blogs, nas músicas que baixa, nos filmes que vê. Na adolescência, há sempre aquele caminhar perto da morte, o fascínio. Não todos, mas alguns passam por isso. A ponte? Pode ser uma saída. O filme é muito bem feito. Os aspectos técnicos não deixam nada a desejar, é pra gringo nenhum botar defeito. Pra não dizer que só falei de coisas boas, o filme poderia ter uns minutinhos a menos. Chega num ponto em que ele se arrasta demais. Mas só posso fazer essa ressalva. Henrique Larré, o protagonista, surpreende por sua atuação segura. O menino é talentoso, sem sombra de dúvidas. Esmir não mostra a fome, a miséria, a vida nas favelas e mesmo assim está muito próximo do Brasil. Pode não ser o Brasil de todos, mas certamente é o de muita gente. Ao lado de "À Procura de Eric" de Ken Loach, foi um dos melhores filmes do FIC Brasília 2009 que vi. Vale a pena ver, assim que entrar em cartaz no circuito nacional.

Rizoma