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Marighella

Um dia, faz 40 anos, eu estava indo com meu pai para a escola e ele disse: 'Vou te contar um segredo: seu tio Carlos é o Carlos Marighella.

Muito esperado por uma geração da esquerda brasileira, em outubro estreia o documentário Marighella, de Isa Grinspum Ferraz.

Meio século da história do país pode ser contado a partir dos acontecimentos na vida da personagem, ícone comunista: a gênese do comunismo baiano, mulato, o conflito entre integralistas e comunistas, a legalização do Partidão, a clandestinidade, a frustração com Stálin, o golpe militar e, por fim, a luta armada.

O que torna esse Marighella único é o olhar íntimo, de dentro da família. Esse olhar veio da própria Isa, socióloga formada pela USP, que assina a direção e o roteiro do filme:

Tio Carlos era casado com tia Clara. Eles estavam sempre aparecendo e desaparecendo de casa. Era carinhoso, brincalhão, escrevia poemas pra gente. Nunca tinha associado o rosto dele aos cartazes de 'Procura-se' espalhados pela cidade. A ideia é desfazer o preconceito que até pouco tempo atrás havia contra meu tio. Era um nome amaldiçoado, sinônimo de horror. Além da vida clandestina e do ciclo de prisões e torturas, procuramos mostrar também o poeta, estudioso, amante de samba, praia e futebol, e acima de tudo o grande homem de ideias que ele foi.

Na pesquisa realizada para a obra, surgiram algumas revelações. Clara Charf, companheira de Marighella de 1945 até sua morte - hoje com 86 anos - desenterrou uma pasta que pertencia a ele, na qual aparecem correspondências, mapas e esboços de ações guerrilheiras. A produção também descobriu uma gravação de Marighella para a rádio Havana, de Cuba. Em sua fala tipicamente cadenciada, ele anuncia o rompimento com o Partido Comunista e a adesão à luta armada. Mesma época em que intelectuais europeus como o cineasta francês Jean-Luc Godard passam a enviar remessas de dinheiro em apoio à sua causa.

O filme ainda traz trilha sonora de Marco Antônio Guimarães e Mano Brown e depoimentos esclarecedores de militantes históricos, como o crítico literário Antonio Candido:

Marighella encarnava moral e psicologicamente o seu povo. Ele era pobre e não abandonou sua classe.

Já a judia Clara enfrentaria resistência do pai ao assumir o relacionamento, no que acabou se transformando numa versão tropical de "Romeu e Julieta". Ela lembra aos risos:

Carlos era preto, comunista e gói (não judeu), mas era muito doce e, no fim, conquistou a todos.

O rapper Mano Brown também assina música inédita, Marighella, canção que encerra o documentário:

Fonte: Vermelho

Eu, seguramente, estou esperando pelo documentário.

Sobre a semana passada

Como comecei a cobertura do XI FIC Brasília somente na segunda-feira, vou falar somente agora sobre alguns filmes que vi na semana passada. A começar por "A Fita Branca" que foi o longa que passou na abertura do festival. Michael Haneke é o tipo de roteirista que não gosta de entregar o filme prontinho, fechadinho e com um lacinho em volta para o espectador. E isso não é feito de uma forma desleixada e forçada. Há todo um pensamento envolvido. “A Fita Branca” (Dass Weisse Band, 2009) é o filme austríaco que  ganhou a Palma de Ouro esse ano. Honestamente, não sei se merecia ganhar, pois não vi os outros, mas o filme de Haneke é belíssimo. A influência de Bergman é muito perceptível. Uma história sobre o nascimento do ódio, sobre pais e filhos e como a forma de criar a prole dificilmente muda de geração para geração, a não ser que aconteça algo, como uma Guerra pra onde todos os homens do vilarejo fatalmente irão e só sobrarão as mulheres. O que será feito desse tipo de criação? O filme se passa num vilarejo alemão pouco antes da I Guerra Mundial. Estranhos eventos começam a acontecer na cidadela. Estes incidentes isolados vão tomando forma de um ritual de punição. O professor da cidade investiga o caso, tentando achar os culpados. “A Fita Branca” dividiu opiniões do público em Cannes. Alguns alegaram que a quantidade de personagens confunde o espectador. Outros disseram que a fotografia de tão bela toma conta do filme e atrapalha no entendimento da história. Mas, na minha opinião, o filme austríaco é uma aula de sutileza. Um filme violentíssimo que não mostra nenhuma cena de violência, isso é admirável. A fotografia, em preto e branco, fez Haneke se aproximar ainda mais de Bergman. O gelo, o olhar das crianças, a religião, o ódio, a repressão, a criação severa, a repulsa e a crueldade, esses são alguns dos aspectos tratados na película. A fotografia só atrapalha aos maravilhados, sem ela o filme não causaria o impacto que causou, sem ela não teria como sair tão satisfeito dali. Cada quadro é uma pintura, tudo muito perfeito. Cinema é música da luz e essa foi uma sinfonia de Beethoven, nesse quesito. É certo que o filme tem seus problemas, ele parece mais longo do que é, por causa da tamanha densidade da história. A narração torna-se repetitiva, a partir de um certo momento. A necessidade de tornar o professor um pouco mais importante na história cria uma historinha em paralelo que não faz diferença alguma. Porém, apesar dos pesares, “A Fita Branca” é um filme belíssimo, com alguns diálogos primorosos. Um amigo, logo depois que a sessão terminou disse “Isso aproxima-se à literatura. Aproxima-se tanto que eu precisaria de mais tempo para ver esse filme.” De fato, isso não agrada a todos, mas não há como negar a beleza do filme e a sutileza de Haneke. O filme deve estrear no Brasil no ano que vem. Quando isso acontecer, não deixem de ver, de forma alguma. * A estreia, no Brasil, do filme de Haneke está prevista para março de 2010. * Em breve, farei posts sobre os outros filmes que vi na semana anterior.

Rizoma