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E os vencedores do XI FIC Brasília foram

Mostra Competitiva

Melhor filme: "Prince of Broadway" (EUA, 2009) de Sean Baker

Menção honrosa concedida pelo júri: "Tulpan" (Cazaquistão, 2008), de Sergei Dvortsevov

Menção honrosa pela atuação: Elsa Amiel (Nulle Part, terre promisse)

Prêmio TV Brasil

Melhor filme: "Insolação", de Felipe Hirsch e Daniela Thomas

Menção honrosa concedida pelo júri: "Os famosos e os duendes da morte", de Esmir Filho

Menção honrosa para melhor ator: Marcio Vito (No meu lugar)

Menção honrosa para direção: Lucía Puenzo (El niño pez)

Prêmio de excelência técnica: Mauro Pinheiro Júnior (pela fotografia dos filmes Insolação, No meu lugar e Os famosos e os duendes da morte)

A poesia das pedras

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" é o mais recente filme de Karim Aïnouz ("Madame Satã", "O Céu de Suely") em parceria com Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"). Ele se configura como o diário de viagem de um geólogo que é enviado para realizar uma pesquisa no sertão nordestino, com o intuito de avaliar uma área que servirá de lugar para a construção de um canal. A película, de início, dá características de uma espécie de road movie poético. As imagens do filme foram captadas há um certo tempo. Estavam guardadas e foram montadas e remontadas formando um filme que fugiu completamente da ideia original dos dois. O geólogo, José Renato (Irandhir Santos), não aparece em nenhum momento. Ele vai relatando suas impressões durante a viagem. No início, a herança do Cinema Novo é clara: a narração, o ambiente, o isolamento do sertanejo. Em determinado ponto, lembra muito "Os Sertões", de Euclides da Cunha, isso quando ele detalha a geografia da região, fala sobre as rochas. O filme que começa falando de pedras, de solidão e desolação do personagem. A vontade de voltar para casa, voltar para a "galega". No decorrer do filme, a paisagem começa a mudar, o vazio começa a ser ocupado por pessoas e ele começa a enxergá-las. A trilha sonora é composta, em parte, por músicas do gosto popular. Algo que combina muito com o interior do Brasil: o forró, as músicas românticas. O começo com frases piegas que vai se transformando e a narração vai tomando contornos mais poéticos, depois ela vai sendo povoada por pessoas que fazem parte daqueles lugares remotos. Mesmo com suas irregularidades inciais, "Viajo..." é um bom filme que merece ser visto. Mesmo que seja só por curiosidade. #Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani: - "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil, 75min. Sessões: dia 14 de novembro, às 18h00 e dia 15 de novembro, às 15h00

Um aviador também pode filmar

Ontem, depois de gastar os restos das minhas moedas no caríssimo café da Academia de Tênis, me dirigi à sala 5 sem esperar grandes coisas do filme do Cazaquistão, "Tulpan". Achei muito curioso o fato de seu diretor, Serguey Dvortsevoy, ter se formado na Escola de Aviação da Ucrânia. E queria ver o que os jurados de Cannes andavam premiando, já que a película ganhou o prêmio Un Certain Regard, em 2008. Algumas pessoas tinham comentado que o filme era bom, mas essas avaliações são tão subjetivas. É preciso de mais e mais para me convencer. E, também, não gosto de gerar expectativas em torno de algo que eu vá ver. A questão é que "Tulpan" me surpreendeu muito. Dvortsevoy diz que faz um "cinema da vida" e realmente o que vemos na tela é tão próximo da realidade que não se sabe ao certo o que foi dirigido e o que aconteceu ali naquela paisagem desértica sem previsão. Tudo o que foi apresentado demonstrava uma experiência de vida vasta e de fato Serguey a tem, pois viajou por muitos cantos daquela região da antiga União Soviética. "Tulpan" foi candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2009. É claro que isso não é garantia de qualidade, mas é estranho como os filmes que concorrem a esse prêmio serem tão diferentes daqueles que são feitos nos Estados Unidos. A linha é tão tênue entre documentário e a ficção nesse filme cazaque e a história é tratada com uma grande delicadeza, coisa de quem respeita o homem, que sente afeto por ele. Esse é o primeiro longa de Serguey Dvortsevoy. A história se passa num lugar no meio da estepe cazaque, não há indicações precisas de onde seja. O protagonista, Asa, quer ser pastor de ovelhas e ele busca um casamento, pois essa é a exigência de seu patrão para que ele possa receber um rebanho. A única jovem disponível da região, Tulpan, rejeita-o, pois alega que suas orelhas são muito grandes. Asa tenta a todo custo fazer com que ela o aceite. Numa determinada cena do filme, ele mostra à jovem o desenho que fez na gola de seu uniforme de marinheiro do Serviço Naval Russo, um costume entre eles. E algo tão simples, torna-se tão belo. Um jovem que mora no meio do nada e que ainda é capaz de sonhar. Os longos planos contemplativos acompanham o cotidiano dos personagens. O elenco é composto, em sua grande parte, por atores não-profissionais. Serguey opta por usar o nome verdadeiro daquelas pessoas. Ao fazer uma comparação, pode-se dizer que sua câmera funciona como a máquina fotográfica de Cartier Bresson, pois ele parece invisível e capta momentos tão únicos quanto o fotógrafo francês. Ele está sempre no lugar certo, na hora certa. É impressionante. A longa cena do parto da ovelha é um momento que para alguns pode causar um certo asco, mas que simbolicamente é um momento muito importante na vida de Asa (Askhat Kuchencherekov). O momento da auto-afirmação como pastor. Há também o lindo plano em que o protagonista observa sua família pela janela de um trator, ele olhando para trás e sua irmã e seu pequeno sobrinho correndo atrás do veículo, a moldura de um sonho que ele está a abandonar. "Tulpan" é um belo filme que vale a pena ser visto por seu humanismo. #Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani: - "Tulpan", de Serguey Dvortsevoy, Cazaquistão, 2008, 100min. Sessões: sexta-feira, dia 13 de novembro, às 19h10 e sábado, dia 14 de novembro, às 19h40

Sobre a semana passada

Como comecei a cobertura do XI FIC Brasília somente na segunda-feira, vou falar somente agora sobre alguns filmes que vi na semana passada. A começar por "A Fita Branca" que foi o longa que passou na abertura do festival. Michael Haneke é o tipo de roteirista que não gosta de entregar o filme prontinho, fechadinho e com um lacinho em volta para o espectador. E isso não é feito de uma forma desleixada e forçada. Há todo um pensamento envolvido. “A Fita Branca” (Dass Weisse Band, 2009) é o filme austríaco que  ganhou a Palma de Ouro esse ano. Honestamente, não sei se merecia ganhar, pois não vi os outros, mas o filme de Haneke é belíssimo. A influência de Bergman é muito perceptível. Uma história sobre o nascimento do ódio, sobre pais e filhos e como a forma de criar a prole dificilmente muda de geração para geração, a não ser que aconteça algo, como uma Guerra pra onde todos os homens do vilarejo fatalmente irão e só sobrarão as mulheres. O que será feito desse tipo de criação? O filme se passa num vilarejo alemão pouco antes da I Guerra Mundial. Estranhos eventos começam a acontecer na cidadela. Estes incidentes isolados vão tomando forma de um ritual de punição. O professor da cidade investiga o caso, tentando achar os culpados. “A Fita Branca” dividiu opiniões do público em Cannes. Alguns alegaram que a quantidade de personagens confunde o espectador. Outros disseram que a fotografia de tão bela toma conta do filme e atrapalha no entendimento da história. Mas, na minha opinião, o filme austríaco é uma aula de sutileza. Um filme violentíssimo que não mostra nenhuma cena de violência, isso é admirável. A fotografia, em preto e branco, fez Haneke se aproximar ainda mais de Bergman. O gelo, o olhar das crianças, a religião, o ódio, a repressão, a criação severa, a repulsa e a crueldade, esses são alguns dos aspectos tratados na película. A fotografia só atrapalha aos maravilhados, sem ela o filme não causaria o impacto que causou, sem ela não teria como sair tão satisfeito dali. Cada quadro é uma pintura, tudo muito perfeito. Cinema é música da luz e essa foi uma sinfonia de Beethoven, nesse quesito. É certo que o filme tem seus problemas, ele parece mais longo do que é, por causa da tamanha densidade da história. A narração torna-se repetitiva, a partir de um certo momento. A necessidade de tornar o professor um pouco mais importante na história cria uma historinha em paralelo que não faz diferença alguma. Porém, apesar dos pesares, “A Fita Branca” é um filme belíssimo, com alguns diálogos primorosos. Um amigo, logo depois que a sessão terminou disse “Isso aproxima-se à literatura. Aproxima-se tanto que eu precisaria de mais tempo para ver esse filme.” De fato, isso não agrada a todos, mas não há como negar a beleza do filme e a sutileza de Haneke. O filme deve estrear no Brasil no ano que vem. Quando isso acontecer, não deixem de ver, de forma alguma. * A estreia, no Brasil, do filme de Haneke está prevista para março de 2010. * Em breve, farei posts sobre os outros filmes que vi na semana anterior.

Rizoma